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Lança o teu pão sobre as águas | Culturgest

(sobre  o Qohélet / Ecclesiastes)
com Maria Filomena Molder
destaque
Jorge Molder. Fotografia da série The Secret Agent, 1991 (pormenor)
 

Lança o teu pão sobre as águas é o primeiro versículo do capítulo 11 deQohélet e introduz-nos imediatamente na atmosfera enigmática e não sentencial deste livro do Antigo Testamento. A tradução em português é minha, feita a partir da tradução italiana do "poema do Velho", assim o qualifica Guido Ceronetti, que desde 1955 o leu e tentou traduzir. A sua primeira tradução publicada data de 1970, seguiram-se as de 1984, 1987, 1991. Em 2001 publica a última versão, embora não definitiva, como se irá perceber e porquê.

Qohélet não é o nome de ninguém. Na Vulgata passou a Ecclesiastes, aquele que reúne, congrega, chama à reunião. Que tem ele para nos dizer? Coisas amargas, que despertam a repulsa, coisas inesperadas e surpreendentes, coisas que se contradizem e não podem deixar de se contradizer. Nenhuma delas nos deixa indiferentes. Trata-se de um conjunto de axiomas e não de provérbios. Não foi escrito para ser comentado por filósofos ou teólogos, mas para ser decifrado. Os axiomas ficam abandonados a eles mesmos, não fazem parte de uma cadeia dedutiva. Ter chegado a eles é sabedoria, e isso implica ter visto "estas coisas" repetidamente. Por isso as repetições não são problemas de estilo.

Qohélet não consola, dele não se pode tirar uma moral repousante que atribua sentido à vida, o que não deve ser confundido com Deus, porque Deus é uma evidência, o sentido da vida não. Como não sei hebreu, e os meus conhecimentos de grego são rudimentares, só posso comparar as traduções de Ceronetti com as de outras línguas europeias, em particular, inglês, francês, alemão. Ele próprio fornece essa possibilidade.

Por consequência, tenho em vista não só comunicar aquilo que vi nas palavras traduzidas de Qohélet, nas quais sopra o vento famélico, como promover a iniciação ao singular pensamento de Guido Ceronetti.

Maria Filomena Molder

 

Maria Filomena Molder é professora catedrática aposentada, FCSH, UNL. Últimas publicações: Símbolo, Analogia e Afinidade, Vendaval, 2009. O Químico e o Alquimista. Benjamin, Leitor de Baudelaire, Relógio d'Água, 2011 – Prémio Pen-Club 2012 para Ensaio. As Nuvens e o Vaso Sagrado, Relógio d'Água, 2014.

 

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TERÇAS-FEIRAS
DE 3 A 31 DE MARÇO
Pequeno Auditório
18h30 · Entrada gratuita
Levantamento de senha de acesso 30 minutos antes do início da sessão,
no limite dos lugares disponíveis.
Máximo: 2 senhas por pessoa.
 
Informações
21 790 51 55
culturgest.bilheteira@cgd.pt

 

IN: www.culturgest.pt